Um conto que tem uma lição a ensinar, uma experiência a ser passada adiante porque pessoas precisam aprender com esse exemplo. Através da escrita esse texto expressa o que é amar com dedicação, não importando o quão difícil seja a situação. Espero que entendam bem a mensagem, é curtinha e emocionante, vale muito a pena ler. Confiram seguindo na postagem, boa leitura à todos.
Uma Saudade, Uma
Razão
Meus
pais eram viciados em crack e se perderam nesse mundo das drogas, nunca mais
tivemos notícias, acredito que a morte é a explicação para o desaparecimento
deles. Eu tinha apenas alguns meses de vida quando minha avó foi me buscar no
barraco onde meus pais moravam, ela brigou com eles, lutou e me tirou dos
braços da minha mãe. - Deixem essa criança comigo! - Desesperada, pediu. - Se
quiserem acabar com suas vidas, podem ir, não tentarei mais impedi-los! Mas
essa criança será criada por mim!
Não
sei o que eu seria sem a minha avó. Ela era uma pessoa digna, honesta e que
sempre lutou por quem amava. Salvou a minha vida, tentou salvar meus pais,
porém o caminho deles não tinha mais volta e mesmo assim ela tentou. A vida é
tão injusta, principalmente com aqueles que não merecem sofrer, nunca entendi
essa lógica da existência humana. Gratidão não seria suficiente, ela merecia
muito mais. Eu passei pela pior experiência que existe, senti a dor de perder
alguém, aquela que era minha única família, meu alicerce, minha avó. Não sei
como lidar com isso até hoje, nem como ocupar o vazio que ela deixou em meu
coração, isso não tem cura, exatamente como a doença que ela teve. Alzheimer.
Tudo
começou com pequenos esquecimentos, que ela alegava ser por causa da idade avançada,
depois algumas confusões de não saber onde estava e se irritava do nada, a
mudança foi ocorrendo aos poucos, ela já não era a mesma de antes. Sempre a
obrigava ir ao médico, ele também achou que fosse a sua idade avançada, até que
expliquei os sintomas. Vários testes foram feitos e confirmou que ela tinha
essa maldita doença. Aquela notícia chegou a mim como um soco no estômago. Era tratável,
foi o que me disseram. Porém já não ouvia mais o que falavam. A pessoa que me
ensinou a andar, a falar... Iria morrer aos poucos. “Degenerativa” foi a
palavra que usaram, um eufemismo para “definhar até morrer”.
Os
dias passavam e apenas me restava o pesar, a saudade. Poucos eram os momentos
de lucidez que ela tinha, era como se seu relógio vital estivesse cronometrando
ao contrário, estava se tornando uma criança em suas atitudes e personalidade,
não se controlava mais para ir ao banheiro, tinha que limpá-la constantemente.
Minha paciência e cansaço estavam no limite, mas nunca a deixei perceber isso,
tentei trata-la com muito amor e carinho, mesmo quando não me reconhecia ou até
em seus momentos agressivos. Aguentava tudo isso pela única razão plausível,
ela pode não ter me dado à luz, mas me deu vida e ensinou-me a viver. Se hoje
estou viva é por causa dela. Construir a minha própria família, tentar
conquistar meus sonhos... Enfim, EU POSSO VIVER e ela foi quem me proporcionou
isso. Não há palavras no mundo que consigam explicar o tamanho do amor e da
gratidão que sinto.
Um
dia, em um momento de lucidez, minha avó me chamou pelo meu nome e pediu para
que sentasse ao seu lado, eu rapidamente o fiz. Ela colocou sua mão frágil em
meu rosto e disse. - Filha, sei que estou lhe dando muito trabalho, agindo como
criança, às vezes sendo agressiva, não podendo me controlar para ir ao banheiro
ou até mesmo quando esqueço como falar algumas palavras, então me escute com
atenção. Muito obrigada por ter paciência comigo, por me limpar e por me
ensinar a falar, assim como um dia eu fiz tudo isso por você também. Posso não
lembrar quem é você ou não entender o que está me falando, mas sempre
entenderei os seus abraços e os seus carinhos.
E esse foi seu
último momento lúcido.
FIM
OBS.: Essa estória foi baseada em uma
carta de mãe para filha que encontrei por acaso na internet, tentei buscar sua
fonte original ou sua autora real, mas não consegui achar, simplesmente é uma
carta anônima e com um texto lindo que me inspirou a criar esse conto.
Autora: Jéssica Fidélis.
Texto revisado por: Emília Lima.
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