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quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Esse será o segundo conto de uma trilogia: "Laços".

Se ainda não leu o conto "Linhas", não se atreva a seguir lendo esse próximo conto, explicarei o porquê. "Laços" é a continuação direta de "Linhas", então quem ler o segundo sem ler o primeiro ficará totalmente perdido no sentido de algumas coisas. Enfim, não perca o seu tempo aqui se não leu o primeiro, vale muito a pena ver o desenrolar da estória e o desenvolvimento de Sofia, a personagem principal. E apenas avisando, terá mais um conto para finalizar a trilogia, então aguardem. Para aqueles que já leram "Linhas", espero profundamente que gostem de "Laços". Boa leitura à todos.







Laços


Olá, meu nome é Sofia. Sim, vocês já me conhecem do conto “Linhas”. Resolvi deixar a narradora de lado e tomar conta disso aqui eu mesma. Assim como fiz com a minha vida, assumi o controle, escrevo por mim. Na época em que “acordei” para a questão do encontro entre as pessoas e tal, resolvi dar um basta. Editar tudo, editar a vida. Claro que não foi da noite para o dia, tudo dentro do seu devido tempo. Afinal nada é instantâneo, nem mesmo o macarrão, quanto mais as questões da vida.

Hoje me encontro com 18 anos, meus pais estão separados (Uau! Que surpresa!), por isso passo a maior parte do tempo com meus avós. Na verdade, nem com eles passo tanto tempo por causa do trabalho e da universidade. Entretanto, como mencionado antes, decidi ter uma vida só minha, seria bem melhor para mim. Apenas o fato de não depender mais da boa vontade dos meus relapsos pais para absolutamente nada já seria o suficiente. Portanto, saí de casa assim que atingi a maioridade. Estudo Letras e trabalho numa livraria. Ah, não esquecendo que ainda tenho a doce mania de observar as pessoas. Aprendi quando criança que elas possuem linhas, porém descobri que algumas outras também têm laços, a maturidade abriu meus olhos para um universo bem maior. Olha que interessante!

Laços... Definitivamente não são como aqueles de cadarço, estão mais para cetim usado para embrulhar presentes que, por sinal, são lindos, coloridos, brilhantes... Enfim, digo isso porque um dia, lá no trabalho, estava arrumando a sessão infantil e vi duas pessoas chegando. Percebi logo que se tratava de um casal pelo olhar apaixonado e tinham laços de cores vibrantes e iguais em seus pulsos. Confesso que fazia muito, mas muito tempo mesmo que não via um casal se olhar daquela maneira. Creio que desacreditei um pouco desse tipo de amor por conta do “belo” exemplo dentro de casa. Bom, problemas pessoais à parte, voltemos ao casal.

Antes de qualquer coisa, é bom esclarecer, já tinha visto esse casal por aqui antes, mas nunca tinha reparado nelas com atenção. Você não entendeu errado, era isso mesmo, duas moças andando de mãos dadas pela loja, olhando livros, rindo e vi que rolou até um “roubo” de beijo na sessão dos Guias de Viagem. Depois disso, passei a observar várias outras pessoas com o mesmo tipo de laços. Independente de “gênero” ou de linhas, duas pessoas laçadas pelo mesmo tipo de material. A meu ver isso significa que essas pessoas estão se conhecendo ou já pertencem a um relacionamento estável. Sempre acabo me perdendo nas minhas observações, então nem me surpreendo mais com as broncas que levo no trabalho.

Uma vez, assim que cheguei, fui direto guardar minha bolsa e vestir meu avental, por meu broche com o nome e todo aquele ritual pra começar o dia. Como o movimento ainda estava devagar na loja pude passar um bom tempo encostada no portal, apenas observando as pessoas pela vitrine. As linhas ainda existem, é claro, e cada vez as acho mais lindas... Fiquei lá até que finalmente completei as minhas suspeitas, aqueles que estão sólidos em suas relações estão envoltos com esses laços. Mesmo aqueles que andam sozinhos, posso ver que o laço é de uma cor diferente, assim como sua textura, vai modificando com o tempo provavelmente. Ainda não entendo ao certo.

Teve uma senhora que veio comprar um livro para o neto, o laço dela era vermelho, mas estava tão desgastado e opaco. Fiquei observando, tentando entender...
- Minha filha, acho que é este mesmo. Onde é o caixa? - Ela me perguntou. Logo percebi que estava divagando novamente e acordei.
- Desculpe senhora. Me distraí. Precisa de mais alguma coisa? - Eu disse.
Então ela sorriu um sorriso amarelo, daqueles que a gente dá quando está triste e tenta não demonstrar. Levantou a mão, apontou para um pássaro que estava bordado na minha camisa e disse:
- Um ser tão lindo, tão forte e ao mesmo tempo bastante delicado não é?
Eu olhei para o bordado, depois para ela, sorri e respondi:
- Esse pássaro é lindo mesmo.
- Meu marido adorava pássaros - Com os olhos marejados ela comenta. -, seu preferido era o bem-te-vi. Infelizmente ele faleceu semana passada... Deixou um vazio tão grande. 50 anos de casamento. Me pergunto onde se vê mais isso hoje em dia.
Não tive reação. Engoli seco, tentei não demonstrar emoção. Afinal estava em meu local de trabalho e o gerente detesta quando fico de papinho com os clientes. Foi depois do comentário dela que percebi o porquê do laço que se encontrava em seu pulso estava tão desgastado. Gaguejando, finalmente falo. - A... É... A senhora quer que embale para presente? - Perguntei ainda me recuperando.
- Ah, sim. Por favor. - Ela responde.
Peguei o livro e fui embalá-lo, nesse momento ela apoiou a bolsa no balcão, acho que estava escrevendo alguma coisa. Terminei, peguei a bolsinha para presentes, coloquei o livro dentro e fui entregar a ela.
- Aqui está, senhora. – Eu falei ainda receosa.
- Obrigada minha filha, pelo livro, sorriso e atenção. – Ela olhou bem fixo em meus olhos e concluiu. - Escrevi isso para você. Espero que você tenha uma vida linda.

Entregou um pequeno papel branco, sorriu e saiu. Eu fiquei lá, pasma, paralisada. O papel branco, o escrito em letras pretas. A cabeça girando, pensando em tudo e ao mesmo tempo em nada. Finalmente caí em mim, fui ler o que ela me tinha escrito e lá estava: “Todo ser humano é delicado. Delicado como um passarinho. Não só o humano, mas todos os seres. É uma pena, nós não termos essa noção de fragilidade, nos sentimos imortais, porém basta um deslize, um segundo e num piscar de olhos a vida acaba. Tenha uma vida linda, senhorita Sofia, use sua sabedoria em prol da felicidade, tanto sua, quanto de outros. Atenciosamente, Dona Dália”.  



FIM






Autora: Emília Lima.
Texto revisado por: Jéssica Fidélis.


TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


                                                                                                                                                      

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