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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Nossa primeira estória com capítulos: "Pela Eternidade".

É com enorme prazer que publico aqui nossa primeira estória com capítulos, nela farei uma singela homenagem a cidade que moro e a minha cidade natal, espero que entendam, é simples, mas é de coração. Sempre quis colocar algo de fantasia sobrenatural em alguma estória local e contemporânea, meu objetivo é misturar um pouco de realidade com ficção, o resultado disso vocês poderão conferir seguindo a postagem, é apenas a pequena premissa da estória, o primeiro capítulo. Espero que apreciem e se entretenham. Boa leitura.





Pela Eternidade

Capítulo 1


          Já faz 101 anos que estou nesse mundo, não envelheço, não adoeço, resumindo... Eu não morro, não por falta de tentativas. Não entendo o porquê de ainda está vivo, isso só pode ser uma maldição, eu sou um infeliz amaldiçoado, fazer o que? Sou um homem com a aparência de 20 ou 25 anos e estou vivendo no ano de 2013, moderno e barulhento, moro na capital de Pernambuco, Recife, tento manter o meu segredo a qualquer custo, mas levando a vida o mais normal possível. No decorrer desses anos todos, já morei em muitos lugares pelo mundo, sei falar várias línguas e tenho um conhecimento absurdo acumulado por estudos feitos até hoje por vontade própria, não durmo muito bem, então sobrava e ainda sobra muito tempo sem fazer nada, tive que encontrar algo para me distrair, apesar de ter passado um bom tempo apenas limitado ao fato de que existo e não tenho como parar isso. A solidão é algo que consome sua alma, sua essência e por isso passei anos tentando descobrir uma maneira de por fim a minha existência, não suportava esse fardo, pelo menos não sozinho. Apaixonar? Já tive muitas paixões, tantas mulheres que perdi a conta, mas tudo superficial demais, justamente para proteger o meu segredo, ainda é algo que não posso dividir com ninguém, tenho um instinto de que não devo compartilhar minha real condição, simplesmente não consigo. Mentir passou a ser algo tão natural como respirar.

          O motivo pelo qual voltei a morar em Pernambuco é que fui encontrado nesse estado, numa cidade do seu interior, chamada Arcoverde. Ainda procuro saber quem eu fui um dia e o que aconteceu comigo, a resposta deve estar por aqui, já tentei antes, mas não posso ficar muito tempo em apenas um lugar, as pessoas passam a perceber que não envelheço, então tenho que me mudar e só décadas depois que posso retornar. É uma procura lenta, mas não desistirei. Quando fui encontrado, estava com a roupa surrada e desgastada demais para tentar identificar o modelo ou o ano que foi feita, eu ainda guardo esses trapos, talvez ajude mais tarde, não sei. O homem que encontrou meu corpo ficou tão assustado e achou que eu fosse alguma assombração, ele trabalhava na construção da ferrovia da cidade, no ano de 1912. O incrível é que os velhos trilhos e a estação de passageiros ainda existem lá, são as únicas lembranças do trem que cortava o Sertão. Isso só pode ser um sinal que ainda posso descobrir minha verdadeira origem. Lembro que não sabia falar, vi o homem assustado que me encontrou gritando algo e eu não o entendia, apenas sei que estava dentro de um caixão de madeira e que ele me achou porque meu caixão estava no caminho que ele deveria escavar, já que os trilhos do trem seriam colocados ali. Eu acordei por causa do barulho de marteladas na madeira, quando abri os olhos foi uma confusão de acontecimentos, o homem gritando, pessoas ao longe se alarmando e eu tendo que me mexer depressa para sair de lá, agi completamente por instinto, fugi o mais rápido que pude. Nada foi registrado sobre esse ocorrido, nem em jornais, em nada. Acredito que as pessoas ficaram tão assustadas que atribuíram aquela situação a algo sobrenatural, com o tempo a história de “boca-em-boca” caiu no esquecimento.

          E hoje estou aqui, estou de volta e sedento por descoberta, sinto que dessa vez acontecerá algo que mudará o rumo da minha vida, o sentido dessa minha existência atemorizante. Quando tomei consciência nesse mundo, não sabia nada, não conseguia falar e nem entendia o que os outros falavam, tive de começar do zero, fingia ser mudo, pessoas se sensibilizaram com isso e me ajudaram, acolhendo-me em suas casas, com o tempo fui aprendendo tudo com eles. Até hoje, não sei o que seria de mim, se aquelas pessoas não tivessem surgido em meu caminho. Mas essa parte da minha história não contarei agora. O importante é que estou bem hoje e posso continuar minha busca. Eu não sabia meu nome, então me deram um nome que até gostei, chamavam-me de Carlos. Atualmente, eu modifico o sobrenome a cada lugar que vou, mas mantenho sempre o Carlos, aprendi com bandidos a falsificar documentos com maestria, então eu mesmo os faço. Meus documentos no momento estão no nome de: Carlos Eduardo Pereira da Silva.

          Cheguei a Recife em janeiro desse ano de 2013, estou aqui a quase 6 meses e espero o momento oportuno de voltar a Arcoverde. Criei um plano de ação simples, precisei desses 6 meses para organizá-lo e prepará-lo, agora é só executar. Faço parte do grupo de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco, sou professor de história, um prodígio que se formou muito cedo e que apesar da pouca idade, já tem bastante experiência na área. Fui minucioso ao criar esse meu passado, dando crédito em cada detalhe, foi muito difícil conseguir o emprego lá, ainda mais com esse cargo de pesquisador e líder do grupo, exatamente o que queria. Para conseguir isso, tive que apresentar um currículo impecável e na qualidade de Doutor em História, consegui convencê-los de tal, mesmo porque realmente tenho um grande conhecimento nessa área, apenas juntei o útil ao agradável, como se fala por aqui. Com tantos detalhes a serem cuidados, tive que ser criterioso, mas até o presente momento está tudo em seu devido lugar, o plano está seguindo o seu rumo perfeitamente.

          Sei que terá a festa junina da cidade de Arcoverde, uma distração maravilhosa para uma visita minha, fiquei sabendo que essa época festiva lá cresceu muito e turistas de todos os cantos aparecem, a cidade fica lotada, tenho que aproveitar essa chance. A ansiedade começa a incomodar, não penso em outra coisa, quero muito descobrir meu passado, estou em consciência há 101 anos, mas quantos anos passei enterrado? Quem eu era? Família e amigos? De onde eu era? Meu Deus, tantas perguntas e nenhuma resposta, ainda. Não vou desistir, tenho todo o tempo do mundo em minha jornada e vou usar desse tempo para desvendar o mistério dessa minha imortalidade. Só existe algo que me intriga mais que o meu passado, será que existe mais alguém como eu? Ou estou sozinho nessa condição? 



Continuará no próximo capítulo...


Autora: Jéssica Fidélis.


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